Tempo Comum - sua vivência
Além dos tempos, que possuem características próprias, existem trinta e três ou trinta e quatro semanas, durante o curso do ano, nas quais não se celebram fatos particulares do mistério de Cristo; nelas o mistério é venerado em sua globalidade, especialmente nos domingos.
Este período chama-se “per annum” (Tempo Comum).
J. Lopéz Martin diz muito bem que estamos diante de “um tempo importante, tão importante que, sem ele, a celebração do mistério de Cristo e sua progressiva assimilação pelos cristãos seriam reduzidas a episódios isolados, ao invés de impregnar toda a existência dos fiéis e das comunidades. Somente quando se compreende que o Tempo Comum é um tempo indispensável, que desenvolve o mistério pascal de modo progressivo e profundo pode-se dizer que se sabe o que seja o ano litúrgico. Dar atenção unicamente aos” tempos fortes “significa esquecer que o ano litúrgico consiste na celebração,com sagrada lembrança no curso de um ano, de todo o mistério de Cristo e da obra da salvação.
Neste longo período devemos prestar especial atenção ao Lecionário tanto dominical como ferial. É o tempo em que a comunidade cristã aprofunda na fé o mistério pascal e sublinha as exigências morais da vida nova.
A liturgia é antes de tudo,culto santificante; todavia,contém rica instrução ao povo de Deus,para a qual é importantíssima a leitura da Sagrada Escritura.
Por isso o Concílio Vaticano II estabeleceu que houvesse nas celebrações litúrgicas uma mais abundante, mais variada e mais adequada leitura da Bíblia (cf. SC 24,33,35). A recuperação da leitura da maior parte dos livros da Escritura acontece durante o Tempo Comum.
Neste período, deve ser lembrado e cultivado o sentido do domingo como Páscoa semanal e dia da Assembléia.
A leitura dos evangelhos sinóticos que caracteriza os anos A, B e C do lecionário dominical, deve levar em conta que tais textos são o testemunho da consciência de um itinerário de amadurecimento na Igreja primitiva. Esse itinerário, percorrido em momentos sucessivos, pode e deve tornar-se caminho de fé em direção a “uma consciência plena” da vontade de Deus , também para as nossas assembléias dominicais.
Segundo as indicações do cardeal Carlo Maria Martini, as etapas desse itinerário estariam nesta ordem:
O Evangelho de Marcos (ano B) constitui a etapa da experiência catecumenal da conversão.
O Evangelho de Mateus (ano A) marca a etapa da introdução às diversas experiências eclesiais.
O Evangelho de Lucas (ano C) introduz à intelecção do mistério do reino em sua relação com a história.
Tempo Comum - O culto dos Santos
O culto dos mártires foi o primeiro a surgir ao lado da celebração da Páscoa.O fato é mais do que significativo: este culto não é senão um aspecto do mistério pascal.Se os mártires,com seus sofrimentos,testemunharam Cristo,com maior razão é Cristo que neles testemunhou o Pai.Do culto tributado pela Igreja aos mártires,passou-se logo para o culto daqueles que haviam confessado sua fé publicamente,sofrendo torturas,prisões e exílio.Tertuliano os chama de "martyres designati".A partir dos mártires e dos confessores em sentido estrito da fé,houve um ulterior alargamento na consideração dos santos com seu relativo culto, ao entrar a idéia do martírio espiritual;São Cipriano afirma que existiram cristãos que "não chegaram ao martírio simplesmente porque faltou a ocasião do martírio".O número dos santos alargou-se ainda mais quando foram levadas em consideração as grandes figuras de bispos que ilustravam de forma eminente a fé cristã,com sua doutrina e seu exemplo de vida ( por exemplo:Santo Atanásio, bispo de Alexandria).A outra categoria,fundada na instituição do martírio espiritual, abraça os ascetas,as virgens,os monges,até chegar a todo fiel que tenha dado testemunho heróico de vida cristã em qualquer situação.A fisionomia completa do ano litúrgico,aparece nos seguintes pontos fundamentais:
Celebração essencial e primária,celebração memorial, mas real do Mistério Pascal de Cristo: é o objetivo do Próprio do Tempo e de toda Missa.
Celebração,através do Santoral,do mesmo mistério de Cristo,visto em seus frutos,realizado em seus membros que mais se configuraram ao Cristo morto e ressuscitado.
Celebração do mesmo mistério salvífico,enquanto Cristo ainda hoje associa à obra também o amor,a intercessão e o exemplo dos seus santos e, sobretudo da sua Mãe Santíssima.
Os critérios adotados para a revisão do Santoral,na reforma decretada pelo Vaticano II, foram os da verdade histórica de cada um dos santos;da celebração da sua memória no aniversário de morte ou no dia da transladação das suas relíquias e a universalização do calendário.
Tempo Comum - Ritmo "tranquilo" do Ano Litúrgico

Zenit propôs ao Pe. Flores Arcas, professor no Ateneu Pontifício de Santo Anselmo de Roma, algumas das perguntas fundamentais que todo católico se faz sobre o tempo litúrgico.
--Estamos começando o tempo comum, liturgicamente falando. É um tempo «menor»?
--Pe. Flores: Não se trata de um tempo fraco com relação aos demais tempos fortes, já que conta com os domingos que são a celebração semanal da Páscoa, que está na origem própria do ano litúrgico. Em si este tempo não tem nada que o torne inferior aos demais.
O tempo comum não tem como objeto a celebração particular de um mistério preciso da vida de Cristo, mas a totalidade do mistério, visto mais em seu conjunto que em algum mistério particular.
São 33 ou 34 semanas que se situam depois da festa do Batismo do Senhor e continuam até a solenidade de Pentecostes.
Não são semanas completas, pois a algumas falta o domingo ou alguns dias, como nos dias que seguem a Quarta-Feira de Cinzas.
--Há formulários específicos para os dias feriais -- não festivos -- do tempo comum?
--Pe. Flores: Na liturgia atual deste tempo não se previram formulários específicos para os dias feriais, porém -- aqui está a grande novidade -- se preparou um duplo lecionário que enriquece notavelmente a celebração diária.
As grandes pautas da espiritualidade do tempo comum estão marcadas pelo duplo lecionário ferial: o lecionário da Eucaristia e o lecionário bíblico bienal do ofício de leituras, ao que se acrescenta outro lecionário bíblico patrístico.
Os dias do tempo comum têm uma distribuição própria de leituras em um ciclo de dois anos, mas o Evangelho é sempre o mesmo, pelo que é a primeira leitura a que oferece um ciclo diferente para cada ano.
Os evangelhos diários estão divididos dessa forma:
O evangelho de Marcos, desde a semana I à IX.
O evangelho de Mateus, desde a semana X à XXI.
O evangelho de Lucas, desde a semana XXII à XXXIV.
O evangelho de João, no entanto, é lido durante todo o tempo pascal, a partir da quinta semana da Quaresma. Constitui um conjunto de cinco domingos, desde o 17º até o 21º no ciclo B do tempo comum. Trata-se de uma ocasião privilegiada para uma catequese sobre a Eucaristia, ambientada na adesão a Jesus na fé.
--O tempo comum faz parte do ano litúrgico. Como podemos definir exatamente o ano litúrgico?
--Pe. Flores: O ano litúrgico pode ser descrito como o conjunto das celebrações com as quais a Igreja vive anualmente o mistério de Cristo.
Assim expressa o Concílio Vaticano II em sua constituição de liturgia, nº 102: «a Santa Madre Igreja considera dever seu celebrar com uma sagrada recordação, em dias determinados através do ano, a obra salvífica de seu divino Esposo», de modo que ao longo de um ano possamos percorrer os momentos cumes da história da salvação, introduzindo-nos nele.
O ano litúrgico é, portanto, o ano do Senhor, do Kyrios glorioso, do Cristo ressuscitado presente no meio de sua Igreja com a longa história que o precede e o acompanha. Revivemos a aliança, a eleição do povo santo e a plenitude dos tempos messiânicos.
Ao longo do ciclo anual, vamos repassando todo o mistério de Jesus Cristo, desde a encarnação até a espera de sua segunda vinda no final dos tempos, culminando este percurso na celebração mais importante do ano, isto é, na memória de seu Mistério Pascal.
O ano litúrgico, em seus diversos momentos, não celebra outra coisa senão a plenitude desse mistério, tem seu centro na Páscoa anual, tudo brota dela e tudo tende a ela.
--A Páscoa é sempre o ponto culminante?
--Pe. Flores: Os documentos que acompanharam a reforma litúrgica insistem de modo muito especial nesta centralidade pascoal; daí se desprende a necessidade de destacar plenamente o mistério pascoal de Cristo na reforma do ano litúrgico, segundo as normas dadas pelo Concílio, tanto no que referente à ordenação do Próprio do tempo e dos santos, como à revisão do Calendário romano.
A contínua celebração pascoal se constituiria, por isso, em ponto de partida de toda reforma do ano litúrgico.
A constituição conciliar sobre a liturgia e os documentos posteriores é clara e rotunda, não existe mais que um ciclo, que é o pascoal, ainda que junto a ele se situem outros ciclos colaterais.
A Páscoa de Cristo se encontra no centro da ação litúrgica; daí que toda espiritualidade cristã deva ser uma espiritualidade polarizada pelo fato divino da salvação, pelo mistério pascoal vivido por Cristo e celebrado memorialmente pela Igreja.
--Há espiritualidades específicas para cada tempo litúrgico?
--Pe. Flores: Sim, certamente. Centrando-nos nos grandes tempos do ano litúrgico, poderíamos dividi-los segundo a tonalidade do próprio tempo litúrgico, sempre partindo da unicidade da celebração da Páscoa, buscando a totalidade na simplicidade do mistério, ou seja, «o todo no fragmento»: Advento: uma espiritualidade escatológica; Natal: uma espiritualidade esponsal; Epifania: uma espiritualidade real; Quaresma: uma espiritualidade de conversão e penitência; Tríduo Pascoal: imitar sacramentalmente o mistério pascoal de Cristo; Páscoa: uma espiritualidade pentecostal; e o tempo Comum: o ritmo tranqüilo do ano litúrgico.
Font:
Paróquia Santa Maria dos Pobres